E se ao menos tudo fosse igual a ti.
Mas não é. Não há cópias, não te poderei viver duas vezes nesta puta de vida curta. E parece que quando encontramos o amor os aniversários chegam mais depressa e nos cortam as asas mais rápido. O tempo corre para um fim para o qual todos nascemos, isso sei porque isso é certo. Mas parece que quando encontramos o amor a vida fica ainda mais curta. Puta. Queria eu conseguir reviver-te através das fotografias, tocar-te e sentir o teu cheiro novamente, só para me lembrar de quem nunca vou esquecer enquanto existem quilómetros de distância a separar-nos e um autocarro que demora cinco horas a cá chegar. É engraçado, ou então não mete piada nenhuma: quando o autocarro partir de Lisboa o relógio vai abrandar o passo enquanto o meu coração corre atrás do teu numa escada rolante ao contrário e as cinco horas serão dias dentro de mim.
Mas ainda bem que as melhores coisas da vida só existem uma vez. Assim, só há uma pessoa que as vive.
Obrigada por me teres escolhido para te viver.
20100812
20100804
20100715
O meu amor e eu #2
Dei-te uma folha com tudo o que sentia lá escrito. Perguntas-te-me se guardara o rascunho em casa e eu respondi-te: não guardo rascunhos das melhores coisas da minha vida, porque as melhores coisas não são sequer coisas e eu não vivo de folhas de papel amachucadas.
O meu amor e eu #1
Lembras-te de quando passeávamos pela Baixa e eu te disse que a ansiedade de que falavas quando olhavas para mim apelidava-se de borboletas na barriga? Tu sorriste ingenuamente. Não sabias mesmo que era esse o nome.
20100701
Apontamento #68
Um dia não é só mais um dia porque se fosse só mais um dia seria o mesmo dia todos os dias e eu amo-te todos os dias mas o meu amor por ti não é sempre igual e tal e qual ele não é igual nós somos diferentes todos os dias da nossa vida são dias diferentes de nós.
20100622
20100608
Sr. Presidente: faça o favor de engolir mais este sapo.
O casamento homossexual foi promulgado. E à moda de Eça de Queirós gritamos Hurra!
Agora só falta empurrar a hipocrisia dos portugueses mais um pouco para dentro do seu umbigo e pode ser que haja mais lares disponíveis para proteger as crianças do Estado.
A adopção por parte destes casais, agora legais aos olhos do nosso Presidente da República, seria um passo longo nesta demorada caminhada para a abertura da mentalidade desta sociedade amaldiçoada por Salazar.
Um dos argumentos contra esta possibilidade é o distúrbio psicológico que crianças adoptadas por um casal homossexual podem vir a sofrer devido ao facto de terem dois pais ou duas mães. E eu pergunto: porque não? Mais vale dois pais ou duas mães do que nenhum. Muitos psicólogos conservadores também juram a pés juntos que a relação homossexual dos pais vai influenciar a orientação sexual da criança adoptada, que terá tendência a copiar a orientação do casal. Mas já que estamos a recorrer a psicologia básica, gostava que esses grandes senhores explicassem então porque é que grande parte dos homossexuais foram criados no seio de famílias heterossexuais e decidiram fazer birra e não copiar os pais.
E mantendo o comboio da argumentação sobre carris, a ideia de que uma criança necessita das figuras materna e paterna presentes para crescer é passível de dúvida. Sendo o casamento uma instituição em decadência, cada vez é maior o número de divórcios entre casais com filhos e neste caso nem os pais, nem os psicólogos nem o Estado metem a colher entre o marido e a mulher em defesa do crescimento saudável das crianças! Para não falar das mães solteiras e pais solteiros: e é melhor mesmo não falar sobre eles visto que da boca do Estado não sai uma única palavra.
Portugal está a rebentar pelas costuras de casos em que as crianças crescem gordas e mimadas com apenas um pai ou uma mãe e ninguém fala sobre isso, nenhum psicólogo vem opinar para o programa da Fátima Lopes e os divórcios e os pais que abandonam os filhos são tratados como casos raros.
E se as criancinhas adoptadas forem maltratadas na escola? E se forem excluídas e não tiverem amigos? E se crescerem para serem adultos coitadinhos? E se morrerem velhas e sozinhas? Tudo isto apenas pelo facto de terem sido amadas e acarinhadas por um casal homossexual quando ninguém queria saber delas? Realmente esta especulação sobre a vida inteira de uma criança apenas com base no facto de ter sido adoptada por um casal homossexual que lhe deu o que os pais biológicos não lhe quiseram dar é obra, mas não de arte. É obra de escárnio e maldizer. Ignorância, especulo eu. Também posso especular?
As crianças são más, isso toda a gente sabe. Para elas tudo é motivo de piada. Basta a mãe ser gorda, o pai ser preto ou o irmão ser fanhoso que há pano para mangas nos insultos possíveis! Ter pais homossexuais é apenas mais um motivo. E quem seríamos nós hoje se não tivessem gozado connosco na escola primária? Seríamos como o Sr. Cavaco Silva, sem ofensa.
A promulgação da adopção por parte de casais homossexuais não seria apenas uma nova lei. Seria uma chapada sem mão nas cabeças duras dos portugueses, outro sapo que custaria a engolir ao Presidente da República e o início de uma nova geração de crianças com uma mentalidade mais aberta e menos preconceituosa.
E já agora, Sr. Papa: a homofobia não é pecado? Aguardo ansiosamente uma resposta heterossexual. Eu e as criancinhas.
Trabalho para Técnica e Expressão do Português, Escola Superior de Comunicação Social
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