A rádio. Surgiu na ressaca dos loucos anos 20 - antes da televisão. Rádio Clube Português, a emissora nacional. Transmissora de novelas de voz, era cheia de dinamismo e novidade ao representar o novo noticiário de ouvir. Veio rebaixar o gira-discos, vendendo música a preço de caixa com botões. Transformou-se em centro de mesa das salas de estar, por cima do bibelô da avó e ao lado do retrato de família. Novo marido da dona de casa desesperada, que enquanto passava a ferro chorava porque o António não podia casar com a Dalila, porque o pai dela não deixava. Fetiche das mulheres portuguesas, a voz sem cara que as acordava todas as manhãs e que lhes dizia ao ouvido mais do que o homem lá de casa – a era dos locutores de rádio, o povo era deles. Os anos d’ouro da música portuguesa – todas queriam a boca de Tony de Matos e todos sabiam tanto quanto a Amália. O remédio para a tosse e o champô maravilha, a publicidade no seu melhor com os jingles que faziam rir os portugueses – não propriamente comprar. Do tempo da gasosa e dos namoros à janela, era o lado fantasia da real ditadura. Quase morreu nas antenas da caixa do primeiro canal – só acessível aos pares de calças que olhavam para ela enquanto bebiam a sua cevada. As saias e saiotes mal tempo tinham para cuidar da sua vida, quanto mais parar para vê-la . A rádio e os seus locutores de face anónima falando de estúdios lá longe da vista – muito mais propício ao fetiche, a televisão dava tudo de comando beijado. Madrinha da revolução vermelha, deu um dos seus últimos suspiros como rainha dos ouvidos portugueses, ao assinalar – cantando – as vozes do povo português. Entretanto a televisão por ser uma caixa maior e já ser a cores e tudo, veio pôr fim aos seus loucos anos de vida e a rádio retirou-se para o lugar de melhor actriz secundária. Mas enquanto a sua caixinha fez de Portugal um país ainda mais pequeno, os portugueses foram felizes.
Trabalho para Seminário de Rádio, Escola Superior de Comunicação Social.
20090112
20090105
Borboleta.
" Se a largar, sinto a sua falta.
Se a agarro, ela perde a cor.
Ela não é dos meus dedos,
é dos meus medos.
Faço-me passar por uma flor. "
Se a agarro, ela perde a cor.
Ela não é dos meus dedos,
é dos meus medos.
Faço-me passar por uma flor. "
20081210
Caixa de mensagens.
O telefone toca mas tu não existes. Deixo-te uma mensagem de voz, quero que me ouças, a ouvir é que nos entendemos bem. Tu ouves-me e eu falo. Falo por mim e por ti. Falo por nós os dois a todas as pessoas do mundo. Tu gostas da minha voz. Dizes que se ouve bem e que as outras vozes te fazem dormir. A minha voz mantém-te acordado. Pés no chão, o amor voa mas nós não. As palavras são como nós, ao longo da vida vamos criando histórias e dando nós até não haver corda. A minha vida inteira resume-se a um nó. Dei um laço à tua volta no primeiro dia em que te vi. Há pessoas que dão nós sem corda - triste de quem fala sem ter o que falar.
Somos donos de todos os nós que damos na vida, a vida é dona de todos os laços que fazemos, se os fazemos bem, se os fazemos mal - não importa. Não é a vida que nos desata.
A tua caixa de entrada, o teu coração. Escrevi-te mensagens com os lábios, a minha língua enterlaçada no sabor de cada palavra e são tão belas as frases que te disse. A caixa de mensagens, a memória do teu corpo no meu, a saudade de nós os dois, a caixa de mensagens guarda a entrada para o melhor de nós. A memória fica cheia. Vai-se empurrando a saudade para o fundo, empurrando o medo de nos lembrarmos, porque para nos lembrarmos é preciso esquecermo-nos. E eu não me quero esquecer de ti.
A mensagem que te mandei ontem, não sei se já a leste. Escrevi-a com a pulsação:
" Deixe mensagem após o sinal - beep. "
O meu coração ainda salta.
Somos donos de todos os nós que damos na vida, a vida é dona de todos os laços que fazemos, se os fazemos bem, se os fazemos mal - não importa. Não é a vida que nos desata.
A tua caixa de entrada, o teu coração. Escrevi-te mensagens com os lábios, a minha língua enterlaçada no sabor de cada palavra e são tão belas as frases que te disse. A caixa de mensagens, a memória do teu corpo no meu, a saudade de nós os dois, a caixa de mensagens guarda a entrada para o melhor de nós. A memória fica cheia. Vai-se empurrando a saudade para o fundo, empurrando o medo de nos lembrarmos, porque para nos lembrarmos é preciso esquecermo-nos. E eu não me quero esquecer de ti.
A mensagem que te mandei ontem, não sei se já a leste. Escrevi-a com a pulsação:
" Deixe mensagem após o sinal - beep. "
O meu coração ainda salta.
20081204
Miocárdio do meu corpo: tu.
Mais de mil pessoas passaram por mim, mais de mil por quem me apaixonar, mas só se não existisses tu - só se.
Se não existisses, não teria como me apaixonar sem coração.
Se não existisses, não teria como me apaixonar sem coração.
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